CLARISSA KALFELZ

Vemissage: 17 de junho de 2003, terça-feira às 20h
Visitação: de 10 de junho a 5 de julho.

Natural de Novo Hamburgo - RS, formada em Engenharia Química pela PUC-RS, freqüentou diversos cursos desde a área ambiental, a cursos de Cor e Composição, Design, Gravura, Decoração de Interiores, entre muitos outros. Clarissa Kalfelz, conta em sua bagagem com diversas exposições individuais e coletivas no sul do país, além de uma exposição em Miami, Casa Cor 2000, Mostra Executiva Design 2001, Mostra Casa & Cia 2002, Mostra Arte&Design 2002, Projeto Luz Interativa Luz & Luz 2002. Seus trabalhos também podem ser conhecidos por sua participação em exposições virtuais em galenas de Portugal, Espanha, França, EUA, Colômbia, Argentina.

A artista plástica, com sua Serie Trama abusa de espaços vazios ligados com tramas de diferentes matérias como murano, cristal, acrílico, pedras brasileiras, cerâmicas, elementos naturais. Clarissa mostra através do fio de nylon, que além de ser transparente e parecer muito frágil, ele consegue sustentar o peso de todas as pedras nele tramadas, deixando elas flutuarem seguramente sendo o centro das atenções.

Tramar um conjunto de fios entre a urdidura é um ato simples e ao mesmo tempo complexo. Simples por ser apenas um enredo e complexo, pois cria a sensação de prisão, estrangulamento. Seus significados são múltiplos - por um lado ela fecha, por outro ela abre. Mas para Clarissa, a trama de fios lembra a mulher - o tecido que a veste, associado a este, os acessórios do vestir, que se encontram nas contas, nos pequenos detalhes associados aos fios. Trama também é a sua vida, pois a mulher precisa ser profissional - mãe - amante -dona de casa - mulher... Sua vida sempre é complexa, sempre ligada a todo um "enredo-trama" - pois ela "precisa" tomar "conta-contas" - fazer a "estrutura-urdidura" da família, do trabalho...

   

 

Tecendo a Vida
Conheci Clarissa "tecendo a vida". Nos caminhos percorridos anteriormente ela deve ter se encantado com a diversidade de fios que foi encontrando. Soltos, esquecidos. Ou emaranhados e abandonados, como se tivessem desistido de acontecer, depois de uma tentativa frustrada.
Clarissa não gosta de histórias interrompidas e se enternece com os fios desperdiçados, com as possibilidades infinitas que eles oferecem quando tratados com a doçura de seu olhar e a carícia de suas mãos. Juntou os que encontrou ao acaso e partiu a cata de outros. Vasculhou gavetas, abriu baús, percorreu estradas, desertos, rios, lojas, pessoas. E foi fazendo os nós, entrelaçando esperanças com ansiedade, medos com alegria, indignação com coragem, egoísmo com solidariedade, amor com desamor. E também amor com amor, esperança com esperança. Como uma aranha foi tecendo uma rede capaz de aprisionar porções de vida.
A rede aberta, sedutoramente estendida, foi colhendo e abrigando os fragmentos que poderiam escrever uma nova história. Uma história na qual cada nó tem um significado, cada laçada tem sua importância, nenhum ponto pode ser ignorado. Uma história que não tem fim, que vai acontecendo na medida em que os fragmentos de vida se apresentam e se oferecem para serem trabalhados. O tecido cresce com a vida, ou com as porções de vida que se deixam aprisionar.
Clarissa tece. E com seu tecido vai abrigando corpos e corações. Vai criando a trama envolvente que permite a participação e os entrelaçamentos.
Todos nós que, de uma forma ou de outra, estamos participando desta proposta de Clarissa, fomos carinhosamente colhidos pelas tramas deste bordado que ela inventou e, para o qual, requisitou os fios que cada um de nós podia emprestar. Fios de seda, de arame, de sonhos, de auroras, de dor ou de alegria, de angústia ou de esperança, não importa, todos os fios se prestam para a grande rede que Clarissa tece e que pontua com suas próprias indagações, suas inquietações, seu afeto.
Clarissa foge do convencional. Clarissa provoca. Joga a rede com a serenidade de quem sabe que, nas suas tramas, adoçadas de ternura, vão se enredar corações que podem acrescentar novos sabores ao mel que o seu coração produz. Sabor suave de flores, de frutas, ou sabor ácido de vinagre, sabor estimulante de pimenta, sabores de vida, que resultam num mel diferenciado, único e envolvente. 
Saímos todos docemente encharcados de ternura.
Clarissa parece viver de tramas. Ou para as tramas. Passeia pela vida catando fios, os mais estranhos, os mais impossíveis, e vai tramando estórias, criando vínculos, aproximando corações e envolvendo pessoas.

Ivette Brandalise